O Veleiro
Se ainda posso me lembrar, já não com tanta exatidão, foi
em uma noite das piores que já tive, quando cada coisa que julguei
estar no meu controle escapou pelas minhas mãos, e cada crença
que algum dia já possuí se perdeu. Creio que por sorte, essa
lembrança foi se esvaindo com o tempo, mesmo que de forma
tardia. Mas, apesar de ressalvas, posso lhe contar o que a memória
não me deixa escapar, e o que algum dia infelizmente supus para
preencher as lacunas que faltavam. Pois, de tudo o que dei valor
em uma existência miserável, nada restou, mas foi destruído em
milhares de pedaços, espalhado em cinzas. O meu destino foi
completo esquecimento. Porque o que vi, não pode ser explicado,
e graças a Deus, nunca mais será visto. Hoje vive em minha mente
e em meus pesadelos, mas não é um alívio para a minha alma.
Certamente já não vivo mais, apenas permaneço como o último
repouso de um ser.
O velho navio Nix, o único no qual trabalhei ao lado, por
mais de cinco longas décadas, foi onde vivi uma vida que nunca
sonhei em levar a priori. Ele foi palco das mais insanas noites de
boemia que qualquer viajante poderia passar. Festas regadas a
álcool, acompanhado de estranhos convidados sem modos, com
roupas a rigor e fala ultrapassada, ou até jovem demais. Fora do
mar nunca ouvi falar de festas como estas, seja antes ou depois
desses dias.
Gostava de pensar que sabíamos viver, ou que sabíamos ir
até o limite que a vida permitia. Na época chamavam de diversão,
eu sentia que ia além, porque se por algum motivo parássemos,
era por exaustão, o que não acontecia. Sempre estavamos em
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completa energia, e o desânimo e cansaço não eram nossos
conhecidos.
Como homem de confiança fui promovido a capitão, e foi
quando escolhi os meus homens de confiança. Um deles se
chamava James Butler, um autêntico conquistador romântico,
diria que aspirante a tripulante, já que não se dava bem com o
trabalho, mas era o mais confiável entre os homens. Outro era
Kilmer Austin, um de meus melhores amigos, estava no navio
antes de mim, e o via como o meu mestre.
Nossos dias passavam por recebimento e entregas de carga
a viagens com passageiros, isso só dependia do cliente e de sua
vontade. De fato, fazíamos de tudo, superando nossas próprias
relutâncias, pois já houveram dias de dificuldade, mas foi naquele
dia onde todas elas foram alcançadas.
Foi Butler quem havia ingerido boa parte do estoque de
bebidas e depois ameaçado seus colegas com uma faca. Em um
esforço extremo, conseguimos contê-lo, com uma estranha
dificuldade. Sentimos algo que, digo isso com cuidado, poderia ser
chamado de sobre-humano, no entanto, talvez fosse apenas uma
percepção momentânea de um acontecimento inesperado. Mas
não era o tipo de força que um bêbado normalmente teria.
Nem todos tiveram essa percepção, seus colegas
acreditaram que ele havia sido, de alguma maneira, influenciado
por uma força maligna, como eles chamaram. Essas ideias fizeram
o veleiro ser tomado por imenso medo, fomentando conversas de
espírito do mar, sereias, monstros e fantasmas, apenas porque
Butler não era uma pessoa agressiva.
Não queríamos colocá-lo no porão, como fazíamos com os
que cometiam crimes, então o amarramos no mastro como castigo.
Esperávamos que em poucas horas ele recobrasse a consciência,
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mas toda a tarde passou, e as histórias por trás do ataque cresciam
de forma descontrolada. Eu não poderia culpá-los, são meses
navegando e uma única intriga se transforma em verdade
absoluta. Muitos deles criam em coisas diferentes, e o Nix era o lar
de todos sem distinções.
Logo o castigo ganhou um ar desconfortável no navio, mas
se manteve até a noite chegar junto com uma tempestade que
havia se formado ao sul. O Senhor Austin, um dos que foram
atacados, pediu que Butler fosse libertado de seu castigo, mas o
voto da maioria prevaleceu por receio de Butler. Em poucas horas,
foi como se o inverno tivesse chegado mais cedo e sem aviso
prévio, acompanhado da terrível tempestade que duramente nos
atingiu. Os homens tomaram daquilo tudo como uma punição do
tal espírito do mar, e sem demora retiraram Butler do mastro.
Alguns tiveram medo ao verem que ele havia acordado, porém
parecia lúcido e bem. A chuva e o vento aumentavam, enquanto o
mar se virava contra nós, fazendo a sua ação para engolir o navio;
e ainda que existisse uma explicação natural, aquilo parecia sim
uma vingança. Cada vento e onda que se esticava contra nós era
sentido como um ataque pessoal.
Eu mesmo já havia visto muitas tempestades, mas nada
como as águas daquela deidade eram, de certo modo,
arremessadas em golpes sem pudor. Me levou a questionar se
realmente era obra de um monstro marinho. O fato era de que
naquele momento isso não importava, pois a tempestade era forte
a ponto de causar estragos na embarcação. Os homens se
empenharam para que não piorasse, e alguns nesse processo
caíram no mar. Foi quando as coisas saíram do controle.
Foi quando do alto escutamos um barulho seco que
ressoou como em uma sala vazia, seguido de — e provavelmente
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era o mesmo som — um grito de dor andrógeno. Naturalmente
olhamos para o céu, mas não vimos nada. O som no entanto
ecoava forte e límpido, mais alto do que a chuva e que os trovões.
Então passou. Ao mesmo tempo, em uma sincronia assustadora, a
chuva estabilizou, ainda que forte, e o mar aos poucos se acalmou.
Mas a sensação, minha e de meus companheiros, era a de morte, a
pior entre as sensações, foi o que nos congelou; não por aqueles
que morreram ao cair, mas por nós. O fúnebre arrepio que
acometeu a todos naquele momento foi tudo o que desejamos
nunca sentir em toda a nossa vida.
Ouvimos mais um som, suficiente para ser o fim da
esperança de muitos ali. Nos acompanhou no convés, formando
seu esqueleto em nossas mentes. Há algum tempo eu chamaria de
passos, hoje porém, não posso dizer nem afirmar que eram, pois
como o único que pode contar o que ocorreu, digo que junto ouvi
gritos dos condenados ao inferno e seus pedidos de socorro, e até
mesmo o que devem chamar de fim de tudo; e creio que não fui o
único no momento.
Havia alguém, ou melhor, algo conosco, observando como
predador, tomando o nosso medo como aperitivo. A sua força era
admirável e destruidora. A pressão que nos causava era tamanha
que nos mantivemos parados por um tempo desconhecido. Era o
seu respirar que percebemos, era a maldita sensação de morte.
Nada mudou nesse período que pareceu segundos, mas
sua quebra foi repentina, quando consegui, sem esforço, me
mover. Junto vi meus colegas fazendo o mesmo. Enquanto eu
olhava em volta, também vi alguns deles se escondendo e outros
chorando, mas nada na escuridão. A tensão havia deixado o ar,
mesmo que ainda estivesse em nossos pulmões forçando nossa
queda. Sim, nossos joelhos não suportaram a pressão e desabaram.
Com minha visão comprometida pela noite, em um
intervalo curto, o lugar que estava cheio de homens, agora
aparentava estar praticamente vazio. Uma única fresta aberta e
mais da metade dos meus se foram. Não tive reação, meu corpo
estava no meio de um furacão, sem chances de revidar.
E então algo soou, não algo extraordinário como um grito
andrógeno, e nem um estalo que ecoava a céu aberto, mas algo
comum e medonho. Murmúrios de alguém, de nenhum dos que
conhecia. Eram grunhidos de algo se alimentando. Todos faziam
silêncio para não chamar atenção, no entanto braços, mãos e
pernas dos que haviam sumido caíram do alto espalhando sangue
por todo o navio. Não foi possível evitar a gritaria. Um a um
rapidamente desaparecia e desmembrado era jogado no chão.
Tive de correr enquanto não era o próximo, sabendo que
em meio ao mar não poderia me esconder. Austin estava perto da
beirada do veleiro, como se pensasse em se jogar; o puxei com toda
a força e gritei que viesse comigo. Descemos até a parte de baixo e
pegamos cada um uma grande estaca que iríamos entregar em
alguns dias. Quando subimos, lá estava o enorme e horrendo ser
que brutalmente trucidava minha tripulação.
Seus grunhidos viraram gritos vociferados, suas asas
descarnadas quase caídas em repouso escondiam sua face
distorcida. Era cinza, como o que restava de uma queimada, mas
marcado por tons pretos de algo que o atingiu. A chuva o
acompanhava como em uma dança; e a cada um que assassinava,
pior a tempestade ficava.
Em sua reação inesperada e tomada por vingança, Austin
correu com a estaca apontada diretamente àquela besta, atingindo
o que imagino ter sido próximo ao coração. Ela se virou em
enorme fúria, acertando não fatalmente a Austin, mas o fazendo cruzar o navio. Tendo sua atenção tomada, a besta foi em busca
dele com a estaca atravessada presa ao corpo, o que aparentava
causar enorme dor, pois ela gritava enquanto se aproximava cada
vez mais devagar.
Corri com a minha estaca levantada contra a besta, mas
minha maior velocidade não era a mais veloz naquela ocasião.
Quando cravei a ponta no crânio do ser distraído, meu amigo já
jazia com os olhos vazios e sem alma, assim como a besta e todos
no navio, exceto por mim. Mesmo sem ferindo, talvez pela
exaustão ou pelo choque, caí junto à besta.
Era quase o fim daquela noite, mas a escuridão insistia em
permanecer, no céu e no chão. Naquele imenso azul estava eu e
mais ninguém. No navio, o fim de uma vida que esboçava seus
últimos momentos com a chuva que parava pouco a pouco, gota a
gota. Implorei sem força que não fosse real, apesar disso eu sabia
a verdade, via o causador daquilo ao meu lado e era inegável.
De onde aquela besta surgira, eu nem imaginava, mas
estava morta, juntamente ao meu passado e tudo o que eu tinha.
Me animo a pensar naquele último momento de vez em quando,
me lembrando de sua morte, porque não fui o único que sofreu
naquela noite. Se muitas duvidas as vezes me assombram durante
o sono, me forço a lembrar, e o tique-taque desaparece por um
tempo, mesmo que eu saiba que soará eternamente no porão de
minha mente, a espreita de alguma brecha. Por isso sei há muito
tempo que não existe uma razão.


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