O Quarto
Me disseram que naquela noite o quarto estava menos frio
que em qualquer outro dia, mesmo com a janela aberta; e que o
inverno pressagioso parecia primavera. Disseram que eu estava
feliz, que a vida tinha voltado aos meus olhos, que eu cantava
como nunca, que tinha amor em mim. Me disseram que eu sorri,
que o dia era maravilhoso e que era como um sonho, que queriam
que não tivesse fim.
Não me lembro dessas coisas. Me lembro da janela aberta
trazer escuridão, quando a noite caiu. De ver o inverno reinar e se
debruçar em mim. Me lembro bem de sentir uma dor incessante e
de querer gritar, mas não conseguir. Lembro do frio e de seu
horrendo olhar me encarar em minutos que tardavam acabar. Não
era sonho, e nem tinha fim.
Alguém entrou por aquela janela, não sabia quem era, mas
carregava um fim com ela. Naquela noite isso foi reafirmado, eu
não tinha dúvidas quando ouvi seus passos. Que frio senti,
congelante e sem amor, como nunca vi.
O sereno que caia era silencioso, e dizia alguma coisa
através do batente amadeirado, se era morte ou vida, eu não sabia
distinguir. Ele dizia tanto sem nenhuma palavra, dizia com o frio
e com verdade. E não são os mesmos? A verdade é fria e sem amor,
como aquela noite foi.
Não importa o que me disseram, eu senti terror e se
falassem que nada aconteceu, seriam loucos. Aquela janela estava
aberta, escancarada e sem pudor trazia frio e estranhos para a casa.
O quarto tremia, ele sangrava, me fazia pensar em como o fim
havia chegado.
Sem esperança, eu não dizia nada, e nem podia. A casa
toda virou palco de algo inenarrável e sem rosto.
Talvez eu não devesse ter temido tanto. Pela janela ele
havia entrado, sozinho e decidido, eu não esperava sair de lá tão
quieto. Eu nem esperava sair.
Se me dissessem que seria assim, mas apenas me disseram
que foi um dia feliz, me disseram que a janela dava uma bela vista
e que parecia primavera.
Eu chorei um pouco quando as coisas acabaram, eu sabia
que era para sempre. Foi quando ele voltou e fechou a janela. O
frio acabou, eu estava feliz e isso ninguém me disse.


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