Diante do mundo
Diante
do mundo, quem eu seria? Mais um de muitos que se ocultam nas sombras, que
descansam sob a mentira, e vivem pela perda.
Se as
aves falassem, grande espanto teríamos, terias de calar no esforço de partir ao
abismo. Estão acima de qualquer reino e conquista, longe de soberba ou altivez.
Até longe de dor, estiveram, e todos deviam estar também. Entreolham e carregam
grande peso, mas recebem seu salário. Prêmios de grande fartura, moedas de
valor obtuso. Assentados, observando que o hoje não difere de qualquer outro
dia. Não há grandezas, apenas dissoluções amarguradas longe do chão.
Mede a
ponta da desesperança frente ao novo ontem carnal. Fosse a vontade embora,
saberia com certeza a razão de voarem leves. Liberdade! Fomos libertos?
Liberdade! Bradam. Aves o sabem, sem vontades sinceras, sem apego ao mundo.
Contaste
sem dizer palavra a um longo caminho direto ao desfiladeiro. Depressa corre seu
anseio, retorna potente sem lembrar; era hora de despedir o passado cheio de
migalhas. Porém, já não são formadas, diluídas, sim, desfareladas.
Sua
sobra é o que hoje aprisiona, contrastamos com as penas sob o ar, viajantes
libertos de verdade, vivos sem as amarras do próprio ser, doadas ao espaço
terreno da inocência.
Eis aí se questionas, não a tivestes. Não a julgas um inegociável pilar e direito? Pois passada e decaída sem o favor do povo, tu perdestes sem mais a tal da liberdade.


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