A Noite do Neemante
Eu já conhecia o senhor greenfield há muitos anos, quando
ainda éramos jovens, e eu fui convidado para uma reunião de
amantes da arte. Ele era amigo de muitos amigos meus, e é claro
que eu já havia ouvido falar dele muitas vezes antes. O excêntrico
Gilbert Greenfield, curador de artes recuperadas e professor de
história da arte, um certo herói no meio atualmente, famoso antes
mesmo de nascer. Os Greenfield eram como lendas, mais de três
séculos de influência na arte e na política. Não é preciso dizer, era
um homem extremamente rico e benquisto da sociedade. Detentor
de uma enorme presença e crédito, que para alguns era assustador
e para outros digno de grande estima. Sem muitas dúvidas era o
homem de maior prestígio naquele encontro, e todos estavam
como abutres em sua volta. Era elegante, charmoso e um tanto
atrevido, possuidor de fortes opiniões do qual não escondia de
ninguém. Filantropo, investidor, ativista, nenhum defeito
aparente. A perfeição em pessoa, era o homem do momento.
O conheci nessas condições, em uma festa de intelectuais,
políticos, gente importante e alguns penetras. Fomos apresentados
por um amigo em comum, e nos primeiros minutos não trocamos
muitas palavras. Em volta daquela gente arrogante, eu deixava
escapar em meu rosto meu descontentamento, e via que ele
mantinha a simpatia e o alto astral, sem mudar o rosto educado e
sorridente, como se estivesse sempre contente.
O que não reparei na época, mas ao longo dos anos pude
perceber, era que o senhor Greenfield não se confortara na fama
de seu nome, mas se dedicava ao máximo para agradar as pessoas,
e fazê-las estarem ao seu redor. Mas até aquele momento, o mesmo
encanto que atingiu meus colegas não me surtira efeito. Pois em um primeiro momento não houve nada em mim que lhe chamasse
genuína atenção, e o mesmo ocorreu comigo em relação a ele. Era
alguém admirável, mas aos meus olhos, era apenas isso.
No entanto, quando ficamos a sós, suponho que ele tenha
deixado escapar, sem intenção, seu interesse pelo misticismo, que
transparecia passar do mero apreço. Na época fiquei fascinado e
bastante surpreendido, pois não esperava tal atividade vista como
vulgar pela sociedade justamente da parte de Gilbert Greenfield.
Foi visível seu embaraço, e estava prestes a se desculpar quando
adiantei o mesmo interesse, e foi o pontapé de nossa
cumplicidade.
A simples quebra de expectativa referente ao seu caráter
intocado me cativou. E o que havia por baixo dos panos era
incrível de verdade e não um modelo de agrado para todos os que
estavam ao redor dele.
Podia ver que o senhor Greenfield não me conhecia, até
porque, estar naquele evento era um equívoco de minha parte.
Sempre que era convidado por meus colegas para esses encontros
acabava cedendo. Eu era o oposto dele, não era respeitado ou
admirado. Mas também seria insensibilidade de minha parte dizer
que era desprezado. Eles apenas me viam como algo, digamos que
dispensável, porque era o demonologista e o parapsicólogo no
meio dos mesmos. Um enorme repelente de boa fama, tudo o que
eles odiavam.
Ter aquilo em meu conhecimento foi como achar ouro. O
que seria vergonha para sua reputação em relação aos outros, para
mim era glória. Justamente eu, era o detentor do segredo de um
homem, não qualquer um, mas Gilbert Greenfield. Não acredito
que haja coincidências, de todos a quem poderia dizer aquilo,
disse a mim; eu estava certo, mas aquela não era toda a verdade.
No fim ele se mostrou feliz com as minhas patentes e
começamos a nos corresponder, nos tornando finalmente grandes
amigos. E entre os muitos assuntos que discutimos, falamos sobre
nossa paixão em comum, o meu campo de estudos. Gilbert dizia
no entanto, ser bastante leigo quanto a prática, e que não tinha
experiência alguma, que nunca havia vivenciado nada. Apenas
estudos, foi o que disse. Na verdade aquilo não me importava,
entre as muitas pessoas à nossa volta que me discriminavam, justo
ele parecia ter algum respeito. E assim nos encontrávamos para
conversar, e eu lhe mostrava meus estudos e todas as coisas raras
que eu possuía em minha casa.
Ele se apresentava interessado, sempre empolgado,
surpreso com tudo o que eu falava e possuía. Mas com o passar
dos anos e o progresso da nossa amizade, Gilbert começou a me
revelar sobre coisas que ele já havia feito, que já havia participado,
sobre o que tinha em posse. Foi quando percebi que ele sabia mais
do que eu imaginava, e que nunca foi como ele dissera. Ainda
assim, o mesmo rosto continuava lá, o elegante e atrevido, como
se nada tivesse acontecido e pela primeira vez me perguntei se
havia sido usado. Mas nada realmente mudou, Gilbert sabia fazer
com que me sentisse parte fundamental da sua vida. Continuamos
sendo correspondentes e bastante amigos, se tornando comum ele
me trazer objetos para análise, mesmo não sabendo que fim elas
levavam depois que eu as devolvia. Assim foi ao longo das
décadas.
Numa madrugada onde a neve não me deixava ver um
palmo à minha frente, dirigi o carro até a mansão Greenfield logo
após ter recebido uma ligação de Gilbert, onde ele me pareceu
nervoso e apreensivo. Era um convite irrecusável, dissera que era
o achado do século, uma estátua de meio milênio recém descoberta na Grécia, e que de forma alguma poderia esperar até
amanhã. Não negaria aquele convite, só de pensar que havia
ganhado a confiança dele e agora receberia esse privilégio, me
desprendeu de qualquer possível entrave. Durante a viagem nada
que remetesse a alguma desconfiança me veio à mente, mesmo
diante de muita neve e do frio que me abalava.
Ao chegar ele me recebeu apressadamente me conduzindo
para dentro do salão principal de sua casa. Nunca o vira daquela
maneira tão inquieta, enfim devia haver algo errado, pensei. Sem
poder expressar o que queria dizer, ele se sentou e pediu que eu
fizesse o mesmo.
— O que vou lhe dizer tem de ficar entre nós dois — disse
ele seriamente — Sei que você tem conhecimento sobre o
Neemante.
— Sim, o deus necromante da floresta.
— Estive na Grécia e não posso negar, é maravilhoso,
parece ter sido feito neste momento. Você nunca vai se esquecer
disso.
— Do que está falando Gilbert?
Ele se levantou e fez sinal que eu o seguisse. Fomos até uma
sala que ficava consideravelmente longe de onde estávamos,
passando por tantas outras salas, anti salas e corredores que não
saberia voltar sozinho. E lá estava no salão quase que
exclusivamente vazio, em cima de uma grande pedra o que
presumi ser a tal estátua, pois estava coberta por uma manta roxa.
Gilbert trazia em seus olhos uma inexplicável expressão de
atração compulsiva escondida por um brilho cativante. Por aquele
tempo deixei de me importar com o quão anormal meu amigo se
comportava, e passei a partilhar de uma inerente curiosidade. Se
fosse mesmo a estátua do Neemante daquele idade, teria uma grande importância para mim e minha universidade, mas o
mesmo não seria verdade para o nome Greenfield. Não explicava,
a não ser pelo amor de Gilbert a tudo aquilo, a obsessão descabida.
Apesar disso, a mim era grande a atenção, mais ainda pela minha
relação com a possível comprovação da real influência dessa
lenda. Boa parte do meu trabalho foi tentar provar essa ideia, mas
como Gilbert poderia saber disso?
O fabuloso Neemante em sua forma mais vigorosa, foi sem
sombra de dúvidas o maior espanto de minha vida. Cai
violentamente no chão desacreditado da realidade do quão
humano se parecia, pois ali morava a questão que em segundos
silenciosos me indaguei e obtive certeza. Seus dois metros
imponentes, a inclinação em posição de ataque, o rosto feroz e as
mãos em intenção de agarrar, mas principalmente a nada aparente
percepção de ser uma escultura. Meu olhar de perito, tantos anos
cansado de ver gesso, mármore, pedra e madeira, não pôde de
modo nenhum dizer do que se tratava aquilo. Era tão óbvio, me vi
compelido e tomado como Gilbert. Por um instante, quando senti
o ser que controlava a morte diante dos meus olhos, esperei ser
abatido e fui convencido.
Tive de dizer o que sabia que meu amigo queria ouvir, mas
tomado pelo medo, a voz não deu as caras. A verdade é o que
tenho que dizer, temi pela minha alma que seria tomada se o
monstruoso Neemante fosse reanimado.
— Ele é de verdade — finalmente disse. E seu sorriso abriu
de lado a lado, correu a me ajudar depois do que falei,
corroborando com suas expectativas, e estava certo. A estátua não
era de forma alguma inanimada, mas na menor das hipóteses
estava morta, e pelo que conhecia, ou melhor, não conhecia de
Gilbert, ele já sabia daquilo há um bom tempo — de carne e osso.
— É magnífico, não? — disse, agora andando em volta do
Neemante — Quanto tempo ele ficou debaixo da terra.
— Como se tivesse congelado.
— Exato! — disse juntando as mãos — É o que
ansiosamente espero.
Já era hora em que a certeza de que meu amigo Gilbert
escondera sempre algo de mim se fizesse presente. E diante
daquela visão inexplicável entendi que aquele foi o objetivo desde
muitos anos atrás quando me conheceu. E disso eu tinha certeza.
Fui fisgado por uma armadilha, que receio muitos outros terem
caído antes mim.
— Me diga logo Gilbert, sem rodeios. Do que se trata tudo
isso? Nós dois sabemos do que estou falando — disse eu. A
seriedade no meu rosto pareceu expressar o que queria dizer —
Essa foi sua ideia o tempo todo, me usar para isso.
— Tem razão, foi — disse ele — Mas você sempre soube,
não tente fingir. Não é inocente.
Havia tanta verdade no que dizia que não tive como
responder, apenas mantive meus olhos no dele. Usei, pela
desconfiança que por tempos tive de Gilbert, sua fama para
compensar a falta da minha, me colocando em um lugar que nunca
chegaria sozinho. No fundo ele guardou essa informação, como
fazia com todos.
— Mas não há ressentimentos meu caro. Afinal, sempre foi
sua vontade encontrar o Neemante também, me disse isso na
primeira vez que nos vimos.
— disse? — perguntei. Mas por mais que pensasse, não me
lembrava.
— Você disse. Mas não se lembra, como não se lembra de
nada depois que se embebedou naquele dia. Não vou te culpar por
isso, foram momentos divertidos.
O Neemante era um dos meus maiores objetivos, e um dos
únicos que nunca havia ao menos achado um fragmento que
comprovasse sua existência. Era desagradável pensar nas muitas
décadas de amizade onde secretamente Gilbert corria atrás do
meu trabalho às minhas costas, sendo esse o motivo de sua
aproximação.
— Não vamos adiar mais isso, você sabe o que eu quero —
disse ele me encarando profundamente — Traga ele de volta.
— O que? — disse. Apesar de ter entendido não poderia
aceitar cometer tamanho erro — Sabe que não posso fazer isso.
— Você pode, esse é o seu trabalho, não o meu. Seja
complacente, somos amigos. Eu não te enganei, te fiz um favor.
Pensei no que ele disse. Era o meu trabalho, anos e anos
estagnado, ali estava a chance, a certeza de que tudo o que estudei
como possibilidade até então. Toda minha reflexão foi diante do
Neemante, do qual ainda não tinha tirado tempo de admirar. Se
despertado seriam impensáveis suas ações, seu poder era
desconhecido, suas vontades também. Mas eu tinha que saber
como era o maior personagem da minha energia gasta, quais
fossem os riscos.
— Não te falo isso como uma ameaça. Ainda somos amigos
— completou Gilbert.
— Porcaria! Vamos fazer — disse.
Em mente passavam vários cenários e eventos. As lendas
diziam que o Neemante não era humano e se alimentava de morte,
sendo o maestro da ruína, manipulador da magia e das linhas do
destino. Para acordá-lo não era necessário que alguém morresse, mas possuir algo morto era suficiente. Tivemos uma conversa
longa, e a ideia que surgiu não era tão admirável, nem belo de se
pensar, nem de longe aceitável, mas era nossa única opção.
Nós iríamos desenterrar o pai de Gilbert e o ofereceríamos
como sacrifício. Foi uma ideia insana, desumano com certeza, mas
o Neemante não era humano, nem aceitaria algo dessa natureza.
Para me consolar, Gilbert me disse que seu pai aprovaria, pois o
propósito era digno de consideração.
Era o auge da noite quando fomos ao cemitério da família
Greenfield que ficava nos fundos da enorme propriedade. O frio
rigoroso, nos fazia mais lentos do que o normal, e com a baixa
visibilidade a caminhada se fez longa, pois tenho certeza que até
em bom clima aquele lugar era acidentado, e isso nos fez chegar
ao túmulo em péssimas condições físicas. Limpei a lápide que era
extremamente detalhada. Estava ali há bastante tempo, e isso era
perceptível, ainda que fosse bem conservada. As gravuras feitas a
mão não mascaravam os musgos impregnados, nem mascaravam
a selvageria despertada no coração de meu amigo. Até mesmo em
sua velhice, estava empenhado como um touro, e sozinho sem
dizer uma palavra freneticamente desenterrava seu progenitor.
A Partir daquele ponto o tempo pareceu perder seu
andamento usual. Acredito que nenhuma alma vivente me
convenceria que aquilo não era uma obra do Neemante, porque
tenho total lucidez e convicção de ter visto o dia nascer, o frio do
inverno deixar nosso meio e a noite tornar a trazê-lo mais violento
que antes. O fato é que para mim aquilo foi como um piscar de
olhos, e o meu relógio apontava meia hora passada.
E assim eu parecia dormente até mesmo na minha mente e
não questionei quando de repente vi os ossos de Gasper
Greenfield dentro do saco que Gilbert havia trazido. Sua empolgação vigorosa ainda era presente, e naquele momento tal
obstinação me assustava, ainda mais por ver em seu rosto uma
sede insaciável e por sentir que havíamos ido longe demais. Todo
aquele incidente terminaria em algo trágico, fora do nosso
controle.
Ele foi na minha frente, e rapidamente o perdi de vista,
certamente estava louco, e eu fraco. Tudo parecia girar, e o tempo
dava mais pistas de sua imprevisibilidade anômala, me fazendo
jovem e velho novamente, forte e débil de repente. As árvores
pareciam estar como no outono e o vento como diante de um
furacão. Meus olhos viam claro e escuro se alternarem, e então
quando olhei para cima descobri que o sol e a lua brigavam pelo
espaço no céu indeciso. Que lindo espetáculo, ouso dizer, sentia
me confuso, mas em instantes em completa razão. Mais uma vez
o trajeto pareceu durar tempos, para mim séculos, quanto ao
relógio nem comigo estava mais.
Ao entrar na casa as coisas pareceram se estabilizar, e a
única coisa que tinha em minha mente como um alvo fixo era que
a insanidade de meu amigo estava escancarada. Ele mancava
certeiro ao salão onde estava o Neemante sem dizer uma só
palavra, com o saco dos restos mortais de seu pai arrastando no
chão. Eu estava tomado pelo medo do que ele poderia fazer com
tanta sede do que planejava.
Pingos que poderia ouvir a quilômetros de distância, tão
altos que me fizeram cair e sentir o tremor do chão a cada gota que
caía. Não pude reparar de início, demorei a me recompor, e apenas
vi quando eles pararam e contemplei a poça que se formou. Do
saco pingava sangue, não de Gilbert, o sangue vinha dos ossos. E
eu já não podia suportar mais, gritei sem parar para que ele
desistisse, mas nem ao menos deu indícios de que desistiria.
E o venerável Gilbert Greenfield foi sem hesitar ao seu
palco e somente dele, persistente em mostrar seu capricho
fanático, em mostrar o seu eu obcecado. Doente pela sua ideia,
lúcido em sua loucura, ele despejou sem cerimônia os ossos diante
do Neemante. Meus olhos queimaram, e ardente em acabar com
aquilo minha juventude foi retomada. Já estava acontecendo, os
olhos daquele ser estavam vivos e olhavam em minha direção. O
inverno antes fora, agora assentava-se dentro ferozmente como
em temporal, e os ventos cortavam meu corpo. O que caía ali
dentro era o juízo contra o desejo egoísta de toda aquela família ao
longo dos tempos. E eu não entendia, via Gilbert grunhir, mas não
arrependido, não com medo, nem mesmo contente; seu rosto
parecia decepcionado, e ele chorava. Eu, mesmo retardado pelo
que acontecia corri obstinado em cumprir o que devia e o golpeei
com um punhal em seu pescoço.
Jazia a tempestade e a juventude, os holofotes se
quebravam, tudo se fazia normal, até mesmo o Neemante como
pedra. Dei paz ao determinado Gilbert, cego em sua ânsia, que em
sua cena final fez digno o nome Greenfield. Bem como gostava, lá
estava uma boa tragédia excêntrica honrando por mérito a célebre
família.


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